

Tom Zé é um zero à direita,
Seja feita sua multiplicação.
Tom Zé é o terceiro olho nu,
Seja feita nossa desmiopização.
(Dedicado a Décio Pignatari, ao cubo. E à receita federal, claro)
(Pedro Ramúcio)
Pequeno quintal de quimeras, apenas um jardim de lembranças e homenagens, que só sabe ser cultivado a várias mãos. Sê sempre benvindo a essa Pasárgada perdida, a essa Terra do Benvirá.
São Paulo, túmulo do samba? Respondo com Adoniran Barbosa. Precisa mais? Oh! Musa desvairada, delirai.
O que eu faço, se me desfaço toda vez que ouço
Gal cantar o “Trem das Onze”?
O que eu arranjo, se me desarranjo cada vez que manjo
Elis mandar “Tiro ao Álvaro”?
Ah! Adoniran João Rubinato Barbosa,
Nunca vi tanta poesia como em sua prosa!
Ou maior prova de carinho
Que fazer uma aliança
Com a corda Mi do cavaquinho!
(Dedicado a Renato Braz e Samuel de Abreu, paulistas da gema)
(Pedro Ramúcio)

Em 9 de outubro de
Em outubro passado, eu postara aqui no Canto Geral uma singela homenagem a esse pernambucano do mundo, após ler, em artigo do craque Alécio Cunha (que faleceria um mês depois, em decorrência de um AVC, na flor dos seus tenros 40 anos de idade), a pouca repercussão, principalmente no Brasil, dos dez anos da morte do autor de "Morte e Vida Severina".
Hoje reposto o poema com que tento, à minha mineira maneira, reverenciar o grande artista do verso que exercia o fazer poético pelo rigor e pela razão, abolida inspiração.
E eu não poderia deixar de dizer da tristeza que também sinto com a perda do grande artesão da palavra que foi Alécio Cunha (com quem eu estreitava laços via e-mails, torcendo virasse amizade; num, ele me respondeu sobre este mesmo poema, seco feito o poeta de "Uma Faca Só Lâmina": "poema bem elaborado").
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Com suor, essa mão
Espalha o pó e o pólen
Do poema inda virgem:
Zangada inspiração.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Essa rima no chão,
Rama que não podem
Desbastar das mãos do Homem,
É rio sem contramão.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Esse rio em questão
Sobe na estiagem.
Pro tempo, qual barragem?
Saudade é inundação.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Esse oceano-sertão
Precisa de drenagem.
Confusa sua paisagem,
Sol e chuva se lavam.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Essa poça, alçapão.
Líquida hospedagem.
Hóspede sem bagagem:
Só o ladrado de um cão.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Esse poço, prisão.
Lodo por toda margem.
Nódoa na mútua imagem:
Os pixels da ilusão.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Esse fosso, fusão.
Fósforo pós-fuligem.
Fóssil sem data; origem.
Cisterna em combustão.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Esse brejo, vulcão.
Sertanejos que fingem.
Violeiros que tingem
De silêncio a canção.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
Essa gota, erosão.
Água de árida nuvem,
Neve de leve friagem.
Fiado o fio do algodão.
Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.
(Dedicado a Alécio Cunha, in memoriam)
Hoje, o rabiscador de quimeras que vos digita estas mal trançadas linhas não foi almoçar na casa da sogra da musa-esposa. Amanhã, tudo será como antes, noves fora tudo.
Enquanto, no outro quarto, o rapaz da loja de móveis
Monta o guarda-roupa novo que abrigará velhas indumentárias,
Eu penso num poema de Mallarmé.
Será que o rapaz que monta o velho guarda-roupa
Já pensou num poema de Mallarmé, ou não?
"Daqui a pouco chega a musa-esposa,
Dona do guarda-móveis em meu peito,"
Ela que sonhava com um guarda-roupa novinho
Ficará feliz de saber que a loja de móveis usados
(As lojas só vendem móveis usados; novos, só a fábrica)
Já mandara o montador de móveis que agora, no outro quarto,
Brinca de quebra-cabeça, juntando as peças numeradas
Que formarão um velho móvel chamado guarda-roupa,
Enquanto eu lembro dum poema de Stéphane Mallarmé.
Enquanto eu nem sei se o rapaz que monta o guarda-roupa
No outro quarto, ele que acaba de virar poema,
Num quebra-cabeça feito de palavras que eu brinquei de montar,
Já pensou, algum dia, nalgum verso de Mallarmé.
(Pedro Ramúcio/AL-Chaer)
Por esses remunerados dias recebi via e-mail umas cantigas causadoras de fagulhas e lágrimas, estas que nos lavam a alma e aquelas que percorrem espinhas dorsais. Tudo, obra e carinho do cronista de poemas sempre lindos, ele, não por acaso e jamais por qualquer ocaso ocasional, fã do afã do poeta das crônicas mais lindas, Rubem Braga.
Vez por outra ouço aqui e acolá que o bardo baiano, o grande Caetano Veloso, não é mais o mesmo. Num domingo desses, por exemplo, o Fagner disse no programa "Conexão Roberto D'Ávila", pela TV Brasil, que o pai da Tropicália hoje escreve pouco e fala muito...

Olá, pessoal da pesada e da minha mais prezada apreciação. Estive - tive que estar - ausente do blogue por alguns intermináveis dias: uma cirurgia urgente que eu deveria ter realizado há uns dez anos, mas só no último 30 de junho criei asa e coragem para enfrentar o fio da navalha. Oxalá, correu tudo bem. Agora, minhas hemorreimas não são mais desculpas esfarrapadas (pimenta no dos outros é refresco, né!) para eu não trabalhar - ah! como dói -, não postar minhas 'maus' trançadas rimas, não viajar pela aí em busca de tertúlias fulgurantes, não ir mais vezes a Santo Amaro da Purificação - Vila do meu Feitiço -, não cumprir alguns compromissos tão simples e corriqueiros, nem outros pequenos poréns para além da minha mínima capacidade de persuasão poética...
Há artistas que são divisores de água, que partem o tempo ao meio, que estabelecem novas fronteiras (de paz!), que movem moinhos futuros, que descontroem muros de concreto mas erguem pontes imaginárias de luz (verdadeiros arcos-de-triunfo da humanidade), que são antenas da raça. Com sua religiosidade pacífica, pregando a não-violência, Gandhi foi um desses artistas. Com seu claro canto iluminador, Renato Braz pertence à espécie.
Quem faz assim com a voz
Põe é tudo ao contrário
O poeta salvo no calvário
O rio vai nascer na foz
Quem canta assim des’jeito
Põe é tudo arrevirado
O amor sem um pecado
O humano sem defeito
Quem lança um canto assim
Põe é tudo ponta-cabeça
O imponderável aconteça
O impossível tenha fim
Quem desfia assim uma canção
Põe é tudo detrás pra frente
O antigo de moda novamente
O moderno em liquidação
Quem traz assim o sol em si
Põe é tudo fora do trilho
O poente reluzente brilho
O breu se oriente aqui
Sabe aquelas vezes que você escreve em puro estado de febre, e, vãs, as palavras vão brotando involuntárias de suas mãos ávidas por descansar do dédalo que habita o teclado do computador? Estes estranhos e aninhados versos nasceram-me assim, baixados do céu ou levantados do chão, não sei ao certo, só sei que essa febre quando passa dá de novo...
Quanto tempo casto gasto pra fazer o verso
Que só faço quando lasso enlaço a lua?
Quantas rimas primas principio do precipício
Mas antes do fio o poema já chegou ao fim?
Quantos rostos toscos ponho face a face
Com o espelho do Evangelho e nasce um beijo?
Quantas palavras gastas no cio e no silêncio
Mas quando balbucio crio uma orgia de almas?
Quantas histórias desbotadas pela tinta da memória
Repinto num pedaço de papel de mim poeta?
Quantos músculos exaustos gesticulo e pulo
Por cima do mais alto muro que não cerca a poesia?
Quantos livros em branco arranco as páginas
E preencho com romances dignos de Dostoiévski?
Quantos títulos vitalícios invento sem intento
De me tornar autor de clássicos de qualquer espécie?
Quantas estrofes esquizofrênicas saltam dos meus dedos
Longos longe de eu ser uma Cecília Meireles?
Quantos cantos eternos, efêmeros ou meros
Alexandrinos miro sem a mira de um Dante ou Homero?
Quantos decassílabos esmiúço amiúde e jamais
Pude comparar-me um centímetro com Vitor Hugo?
Quantos heterônimos reais recriei ao meu redor
Fingindo para mim mesmo que eu paria Pessoas?
Paro aqui estas interrogações quase infinitas
E aborto o poema, ou repontuo-o de vãs exclamativas?
Quem me dera agora eu tivesse uma viola pra cantar!
(Dedicado a José Saramago,
que nos deixou dia 18 de junho último)
(Pedro Ramúcio)

Este pobre rabiscador de quimeras rende-se hoje no dia dos namorados todos os dias à sua musa-esposa-poeta-cantora numa cúmplice homenagem de amor e paixão.



"Este é o poema no blogue
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Um poema no blogue
sequioso de comentários?
São nenhum livro velho
e mais nem um livro novo
de um poeta inda mais louco
que a morte que sonhou
e contudo o provoca
a morrer nunca e sempre.
Tantos livros que a vida
empurrou para longe
de mim
mais um poema no blogue
em que o poeta se contempla
e se diz bom-dia
(ensaio de boa-tarde,
variante de boa-noite,
que tudo é a vasta noite
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro do Pessoa.
Aquilo que escondo
e o mais que segue explícito
em negros alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo
de um heterônimo-órfão,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o roubo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o sentido e o solapado.
Tudo roubado? Nada.
Nada sentido? Tudo.
O blogue pouco cuida
de direitos autorais:
e a paródia mais rica
é um sinal de mais."
(Pedro Ramúcio sobre o Poema-Orelha de CDA)

Eu só queria ver a cara do Paul McCartney quando ouvisse
Cantando “Hello, Goodbye” o Milton Nascimento
Eu só queria, de repente, ver a cara dele quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “San Vicente”
Eu só queria, sábio sabiá, ver a cara dele quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “O Que será”
Eu só queria ver a cara do Paul McCartney quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “Travessia”
Eu só queria, por um triz, ver a cara dele quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “Beatriz”
Eu só queria, tão natural, ver a cara dele quando ouvisse
O Bituca cantando “Brasil, Nome de Vegetal”
Eu só queria ver a cara do Paul McCartney quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “Maria, Maria”
Eu só queria, por mil razões, ver a cara dele quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “Certas Canções”
Eu só queria, para emoldurar, ver a cara dele quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “Conversando no Bar”
Eu só queria ver a cara do Paul McCartney quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “Balé da Utopia”
Eu só queria, quem lhe dera, ver a cara dele quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “O Cio da Terra”
Eu só queria, morena menina, ver a cara dele quando ouvisse
Mister Milton Nascimento cantando “Clube da Esquina”
Eu só queria ver a cara do ex-beato Paul quando ouvisse
Cantando “Para Lennon e McCartney” Sir Milton Nascimento
(Pedro Ramúcio)
Sempre logrei escrever algo para John Lennon
Sempre imaginei que ele fosse ouvir e gostar
De saber que um poeta qualquer dos trópicos
Do Sul
Sempre sonhou em fazê-lo música mineira
Sempre escutei Lennon na música mineira
Nas oitavas acima do Milton e nos acordes do Lô
No piano de Wagner Tiso e nas melodias do Beto Guedes
Nas cordas de Celso Adolfo e nos vôos mágicos do 14 Bis
Na mista récita do Aggeu Marques e nos falsetes de Venturini
Na guitarra de Toninho Horta e nas letras vibrantes de Brant
Nos versos que li do Vander Lee e no canto com que me espanto
Do Tadeu
Franco
Então comprei um piano, aluguei uma guitarra
Rabisquei umas rimas, imitei uns pássaros
Desaposentei meus óculos de trezentos graus
Meus óculos “redondos” de duzentos graus
Meus óculos antigos a verem navios e naus
Subi os degraus de nuvens nos fundos do quintal
De casa
(Ainda há um quintal nos fundos de casa)
E fui compondo este poeminha para minha
Homenagem a Lennon, eu e minhas mãos trêmulas
(Êmulas de si mesmas), para John Lennon
Eu e minhas pernas bambas, para John Lennon
Eu e meus pés descalços, para John Lennon
Eu e minhas asas partidas, para John Lennon
Eu e meus ouvidos ávidos, para John Lennon
Para John Lennon, minha roupa rasgada
Desvestindo a pele e as epidermes da alma
Para John Lennon, meu corpo marcado
No rosto, na sola, na palma e no sangue
Para John Lennon, meus olhos verdes
Ainda que maduros pelas noites em claro
Templos de solidão e lições de sobrevivência
John Lennon não sobreviveu ao tiro
À queima-roupa
John Lennon não ressuscitou à bala
De chumbo
John Lennon não soube morrer
De velhice
Mas John Lennon ainda está vivo
Nas canções
John Lennon renasce a cada solo
De guitarra
John Lennon ressurge em cada nota
De piano
Jonh Lennon revive em cada verso
Da juventude
Jonh Lennon comemora-se a cada
8 de dezembro
Tornou-se estrela no grande céu imaginário
Da minha constelação de diamantes
Ouça, John Lennon, o poeminha que lhe fiz
Com minhas mãos no piano mudo do teclado
Do computador
Onde guitarras solam “Imagine”
Onde cítaras citam “Imagine”
Onde banjos esbanjam “Imagine”
Ouça, John Lennon, meu coração batendo
Palmas
(Pedro Ramúcio)