quarta-feira, 10 de março de 2010

ALFABETANIA

Se algum dia a grande dama do 'drama em música' da Música Popular Brasileira, num lapso de sonho, me pedisse uma canção, como se eu fora um Vander Lee...

Nem precisava pedir
A canção já estava pronta
Muito antes de
O pequeno ponteiro do tempo
Dar o primeiro passo sem fim

Nem precisava sangrar
A canção já estava pronta
Muito embora há
De haver Gilberto Gil ou Gonzaguinha
Pra trazer o verso de lá

Nem precisava sonhar
A canção já estava pronta
Muito mais agora
Quando Fernando Pessoa ecoa
Das cordas mansas de Roberto Mendes

Nem precisava gemer
A canção já estava pronta
Muito mais que
A primeira manhã ao deixar
Alceu Valença tão ao seu alcance

Nem precisava erguer
A canção já estava pronta
Muito além do que
Chico Buarque de Holanda apronta
Com suas rimas primas e desenhos mágicos

Nem precisava do amor
A canção já estava pronta
Muito embora o
Poeta que é poeta jamais nega
O verso que Vinicius de Moraes imortalizou

Nem precisava compor
A canção já estava pronta
Muito além do tom
Que Milton Nascimento
Tornara impossível outra voz revisitar

Nem precisava ousar
A canção já estava pronta
Muito mais ainda
Se Caetano Veloso se nos ilumina
Com sua língua que roça a língua de Noel Rosa

Nem precisava brincar
A canção já estava pronta
Muito mais então
Depois que Guilherme Arantes
Lapidou os diamantes finos da imaginação

Nem precisava saber
A canção já estava pronta
Tomara tão simples
Quanto a modinha mais singela
Que Dorival Caymmi cantava com tanto requinte

Nem precisava sofrer
A canção já estava pronta
Muito embora haja
Djavan na antessala do amor
Mostrando pr'esse pecado o mais sagrado álibi

Nem precisava da cor
A canção já estava pronta
Matiz de todo som
Que Tom Jobim pintou
E espalhou no espelho de todos os pianos

Nem precisava da dor
A canção já estava pronta
Tanto quanto tantas
Compositoras fazem queimar suas fogueiras
E acendem o lado quente do ser

Nem precisava fingir
A canção já estava pronta
Muito antes de
O pequeno ponteiro do tempo
Dar o primeiro passo sem fim

(Pedro Ramúcio)

segunda-feira, 8 de março de 2010

"MISTÉRIOS FEMININOS"

Em novembro de 2008, na sala de espera de uma clínica de fisioterapia, deparei-me com uma entrevista de Daniela Mercury nas páginas da revista Caras, na matéria entitulada "Mistérios Femininos". Achei as respostas da cantora baiana superinspiradas e prenhes de frases musicais. Pincei algumas delas, juntamente com o título - já pronto - da matéria, cujo nome da brilhante jornalista não me recordo agora, e compilei este poema com umas frases-versos de Mercury mais alguns versos-frases deste poeta de plantão que vos fala.

Não existe coisa mais íntima do que a poesia
E melhor que a mulher ninguém escreveria
Um verso de amor, parto de pura inspiração
Sua força é capaz de abrir sem nenhum bisturi
O cofre mais bem guardado a quinhentas chaves
O coração mais frio e gelado que nunca se abre
Sorriso oculto feito o vulto de um notívago colibri

Ainda tem mulheres que não sabem todo seu poder
Casam cedo, no ano seguinte têm o segundo filho
Estão sempre em terceiro plano de emprego e marido
(A calma é a grande intérprete de sua feminina alma)
Mas sem elas eu queria ver o que seria do mundo
Os homens ficariam perdidos numa noite infinita
Os machos restariam extintos feito coisa nenhuma

As mulheres são estrelas que desceram para ser mães
Os filhos são frutos do bem e do mel dessas abelhas

(Pedro Ramúcio/Daniela Mercury)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

LISBON INVISITED (1970-2010)

Há uma só cidade natal para cada um. Eu acho que tenho duas: a que me viu nascer, Governador Valadares/MG, Brasil; e a que me pariu sem eu ter nascido lá, Lisboa, Portugal, Europa. Sinto isso em minha alma, como quem sente que tem um irmão-gêmeo mesmo sem o ter: órfão de irmandade.

Sei versos que eu só poderia escrever ao pisar em teu solo, Lisboa,
Com minhas mãos levantadas pro céu.
São versos salvos para sempre da ferrugem do papel, dizendo
De saudades
Que eu sinto de Portugal que de nenhum outro porto.
Em meu peito tanta estrada percorrida, cada mundo conhecido
E esquecido ou guardado num canto do coração.
E a falta de ver Lisboa, ler Lisboa no mapa da palma da minha mão.
Estar aos pés de Lisboa, ali me encontrar comigo
E com os "comigos de mim."
Dar passeios vespertinos pelas ruas de Lisboa e gozar
O tempo passando, na véspera.
Tudo vale mais na véspera, que é quando tudo e nada acontece.
Por isso vivemos de esperas e vésperas, de instante a instante.

Ao poisar os pés em teu solo, Lisboa,
Terei o transe eterno que só quem morre é que sabe ter.
Serei teu ilustre visitante aguardado sem nenhum convite.
Chegarei às pressas e cansado, da viagem e da volta.
E não sairei nunca mais daí, nem para dançar nos astros
Ou contar a outros povos que enfim Te descobri.
E serei benquisto entre todos...
Falaremos a mesma língua portuguesa, bem baixinho,
Para não despertar os vizinhos, estrangeiros europeus.
Ninguém mais precisará saber ou sequer desconfiará
Que estaremos juntos e felizes juntos.

"Ah, todo cais é uma saudade de pedra!"
(Álvaro de Campos)


(Pedro Ramúcio)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

UMA CIGARRA CHAMADA SIMONE

Ontem, face a face com uma quarta-feira de cinzas ( eu que feito uma formiga preguiçosa passei a fábula do carnaval em casa descansando), bateu uma saudade que me transportou até minha infância perdida - o verdadeiro Paraíso de Milton -, quando eu ouvia muitas canções na voz de Simone, e soprou-me este canto alegre nem triste:

Sim, seu nome é música
Sim, sua voz é única
Sim, sua beleza é múltipla

Sim, amigo é casa
Sim, traga a lenha
Sim, ateie fé ao meu coração
Com o fogo brando da canção
Breve piano da paixão

Sim, cidade é cais
Sim, peixe tem sede
De ar, de respirar azuis
Longe de anzóis e redes
Sim, deixe-me ser caçador de mim
Laçar meu medo à sua fuga

Sim, desesperar jamais
Sim, saudade é cais
Sim, começaria tudo outra vez
Inda que o melhor amor não fosse sempre um ex

Sim, homens serão meninos
Sob o sol ou o luar do sertão
Sim, mulheres darão meninos
Sob o sol ou o luar do sertão
Sim, meninos verão a verdade
Sobre o cais de cada cidade
(Itamarandiba ou Salvador...)

Sim, os dias vestem saudades vivas
Sim, promessas servem sangue e pudins
Sim, secretas juras cegam
Mais que mil cometas de Lóveres Latins

Sim, pensar é melhor do que nada
Sim, o amor não pode ser migalhas
Sim, cantar é melhor do que tudo

E um dia sei que estarei mudo
Mas szi szi szi szi szi szi szi

(Pedro Ramúcio)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

DISCURSO

Poema em homenagem à minha mãe, que, do alto dos seus um metro e meio de puro coração, ensinou-me que o amor e a verdade são os maiores bens que uma pessoa de bem pode possuir, antes e acima de quaisquer outros bens.

Peguei meu violão
Tirei as cordas
Pra fazer canção
Peguei meu corpo
Tirei a roupa
Pra fazer discurso
Peguei minha casa
Tirei as portas
Pra fazer amigos
Peguei meus versos
Tirei as rimas
Pra fazer sonetos
Peguei meu peito
Tirei os espinhos
Pra fazer morada
Peguei minhas cartas
Tirei as lágrimas
Pra fazer fogueira
Peguei meus livros
Tirei as páginas
Pra fazer rebanho
Peguei meu paul cézzane
Tirei a grife
Pra fazer leilão
Peguei meu rifle
Tirei as balas
Pra fazer revolução
Peguei meu carro
Tirei as rodas
Pra fazer rali
Peguei minha coragem
Tirei os medos
Pra fazer política
Peguei meu calendário
Tirei os dias
Pra fazer comércio
Peguei minha mãe
Tirei as asas
Pra desfazer uma santa
Peguei sua mão
Botei na minha
Pra refazer o mundo

Dedicado também a D. Fiíca (in memoriam, na minha memória eternamente), D. Almerinda (in memoriam, sempre na minha memória), D. Lia (in memoriam, na minha memória para sempre), D. Rute (mãe do jornalista e poeta Roberto Lima), D. Niraci (que fica brava quando a chamo de Niverci), D. Jú (mãe do cantor e compositor Samuel de Abreu), D. Olinda (mãe do empresário de moda e artista das canções - um dia essa ordem ainda se inverte - Yta Mário de Olinda) e D. Zuca (a sogra mais feliz do mundo - rsrs - mãe da musa-esposa-poeta) e a todas as grandes mães do mundo (visto que não me seria possível citar todas que eu admiro)...

(Pedro Ramúcio)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

PQNA PLÊIADE


Todos têm sua plêiade de poetas. Eis (parte d)a minha:















Com a palavra, Guimarães Rosa.
Com o pensamento, Nelson Rodrigues.
Com o sentimento, Drummond.
Com a ficção, Fernando Pessoa.

Comigo a poesia ficou rouca...

(Pedro Ramúcio)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

ROMÁRIO, NA GRANDE ÁREA

A primeira vez que ouvi falar de Romário foi pelo rádio, mas já tive aquela sensação de se tratar de um gênio do futebol. E o tempo só fez corroborar aquele meu tênue palpite. Romário tornou-se o rei da grande área e, por onde desfilou com sua arte, colecionou admiradores efusivos e apaixonados, e alguns desafetos extra-campo, porque dentro das quatro linhas ele resolvia as paradas mais tortas a sangue frio, sua grande virtude de goleador.

Quem é Romário, dentro da grande área?
Romário, dentro da grande área,
É o maior artilheiro de todos os tempos
Que eu li na coluna do cerebral Tostão.
Romário, dentro da grande área:
"Eis o maior de todos", era como o saudava
Um dos maiores de todos os tempos,
O craque holandês Johann Cruyff.
Mirem-no: ele é maior
Que o Van Basten foi;
Mirem-no: ele é maior
Que o Reinaldo foi;
Mirem-no: ele é maior
Que o Maradona foi;
Mirem-no: ele é maior
Que o Pelé foi,
Dentro da grande área.

Quantos gols antológicos, Romário?
Desconcertantes, quantos dribles
Num milímetro quadrado?
Quanta alegria, Romário, vê-lo jogar
Com tamanha arte e a mais pura
Malandragem carioca! - Noel Rosa
Do futebol.
Você que ama o Rio, Romário,
Dos gramados fez a sua praia
De areia movediça, onde enfeitiça
Enfeitiçava seus marcadores.
Fez do gol o seu sol de cada dia,
Fez das lágrimas e do suor
Dos adversários um mar de vitórias
Pelo mundo afora.
Você, Romário, caberia na Seleção de 70,
A melhor de todas que já houve.
Alguém sacaria Jairzinho ou Rivelino...
O tostão, por conta própria, daria
A camisa dele a você. Mas,
Não vamos mexer com o imponderável:
O Olimpo não permite que brinquemos
Com os deuses.
Então, fico imaginando vossa excelência
Na Seleção de 82, a mais bonita
Que já houve.
Uma Seleção que, ao perder, Reinaldo
E, depois, Careca, ambos por contusão,
Ficara tão ressentida de outro artilheiro
Da mesma luminosidade, que, você,
Romário, ali se encaixaria feito luva
Para o que seria o maior título
De todos os tempos do futebol.
E, se Paolo Rossi fizesse trezentos gols,
Você haveria de fazer outros trezentos e trinta,
Com passes precisos de Falcão, Zico, Cerezo
E Sócrates, o quadrado mais mágico
Que alguém já desenhou.

Perdoe-me tantas conjecturas, Romário,
No dia da sua despedida com a camisa
Da Seleção Brasileira.
É que você merecia uma Copa do Mundo
Mais brilhante que a de 94,
Conquistada apenas nos pênaltis.
No mais, você foi sempre impecável:
Maior artilheiro de todos os tempos,
Da grande área.

Publicado no Diário do Rio Doce, em 27 de abril de 2005.

(Pedro Ramúcio)

domingo, 17 de janeiro de 2010

VIOLÃO BOSCO




































Sempre ad(mirei) sobremaneira a maneira como João Bosco e seu violão se (con)fundem dentro das canções. Vislumbro neles um elo a mais que cordas e mãos a percutirem som e vibração. Há ali um enlace (nupcial?) a mais, ou menos me engano. João leva seu violão pro palco como quem atrai a noiva prum altar: casamento perfeito entre instrumento e artista; intensa entrega no esfregar-se um no outro que até parece passos de uma dança, ou mesmo gestos de um ato sexual. Eu, de minha parte, não tenho nenhuma dúvida de que as algaravias que João profere durante o coito, digo, canto, sejam orgasmos musicais. Ainda bem que Aldir é psi.

O violão conversa
Com ninguém.
Menos com João,
Com João
O violão conversa.

E eu não sei quem
Com quem, quem canta.
Se João tem voz de violão,
E o violão de João tem vocais
Cordas a mais na garganta.

O violão namora
Com ninguém.
Menos com João,
Com João
O violão namora.

E eu não sei quem
Cai nos braços de quem
No vai-e-vem da canção,
Se o violão desvira mulher
E João delira ser homem.

(Pedro Ramúcio)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O MAIOR POETA BRASILEIRO VIVO


Dizem alguns 'especialistas em arte' que o atual Grande Poeta brasileiro seria Ferreira Gullar. Ele próprio desconcorda de quem concorda com isso. Drummond recusava veementemente o termo, embora o merecesse segundo quase unanimidade. Fernando Pessoa escandalizou Portugal, quando surgiu já proclamando-se um supra-Camões. Eu, antimineiramente, resolvi entrar na discussão:









O maior poeta brasileiro vivo, sou eu.

Pasmem, não é Ferreira Gullar.

Os meus poemas são mais sujos que os dele,

A minha poesia (ao computador) exprime

Mais vanguarda que os galos de outrora dele.

Minhas rimas que não rimam com nada

Inventam melhor não haver uma estrada

Onde passem versos em vez de bois

A caminho de matadouros, ou de meu estômago

Vazio...


O maior poeta brasileiro vivo, não sou eu.

Grasnem, deve ser mesmo Ferreira Gullar.

Os meus poemas são menos límpidos que os dele,

A minha poesia (ao computador) exprime

Menos vanguarda que os galos já antigos dele.

Minhas rimas primas convertem menos lágrimas

Dos olhos de minha amada do que as dele,

Dos olhos da amada dele...


O maior poeta brasileiro vivo, é Ledo Ivo.

(Pedro Ramúcio)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

ATIRE A PRIMEIRA PÉTALA

























Certo dia um amigo meu mandou-me via e-mail a natural notícia de que outro seu amigo estava sofrendo das dores (de oratórios) do cotovelo. A casa tinha caído pro amigo dele. Tentei achar remédio pro mal-me-quer bem-me-quer do amigo do meu amigo, mas não sou douto no assunto. Via de regra, uns versos:

Se o físico Renato Braz sofre de amor
Se o músico Roberto Lima sofre de amor
Se o cantor de ópera, o operário
Pedro Ramúcio sofre fingindo de amor
Se o matemático Wagner Tiso sofre de amor
Se o empresário de moda Renato Russo sofria
De amor

Se o arquiteto Paulinho da Viola sofre de amor
Se o escritor Luís Inácio Lula da Silva sofre de amor
Se o autor de novelas Ronaldo Nazário sofre de amor
Se o economista Arrigo Barnabé sofre de amor
Se o astronauta Sivuca sofria de amor

Se o pastor luterano Roberto Mendes sofre de amor
Se o ecumênico budista Pelé sofre de amor
Se o pintor Marco Van Basten sofre de amor
Se o médico Carlos Drummond de Andrade sofria
De amor

Se o tenista Raimundo Fagner sofre de amor
Se o político (ops!) Gilberto Gil sofre de amor
Se o dançarino Faustão sofre muito de amor

Se o contador de anedotas Geraldo Vandré sofre
Calado de amor

Tudo está no seu lugar, graças a Deus

(Pedro Ramúcio)

sábado, 2 de janeiro de 2010

O LIVRO DE MÁGOAS DA FLORBELA ESPANCA

A primeira vez que me deparei com a poesia de Florbela Espanca foi num disco do compositor e inventor Raimundo Fagner: um soneto chamado "Fanatismo", magistralmente musicado e interpretado por ele. Depois outro soneto: "Impossível", num disco de Ana Belen, composição e participação especialíssima dele, Fagner. Aí, fui atrás dos livros da singular poeta portuguesa Flor d'Alma da Conceição Espanca e, literalmente, tomei uma "surra" de sua poesia densa e melancólica, mas bela e prazeirosa de se ler, reler, ouvir e jamais esquecer.

Eu só sei ler o Livro de Mágoas
Da Florbela Espanca.
Corro os meus dias atrás de outros...
Sempre os mesmos! E cismo
Ser autor de sonetos, poeta
Com algum esmero.
Mas não consigo buscar o ritmo,
Contar a métrica, ditar a melodia:
Carpir a poesia de sublime imaginação.
Tudo que posso são umas linhas
Com algumas luzes azuis,
E cinzas as minhas palavras.
Eu só sei ler o Livro de Mágoas
Da Florbela Espanca.

Dedicado a Evandro de Castro Filgueiras Filho,
poeta precoce até no nome.

(Pedro Ramúcio)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

SER OU NÃO SHAKESPEARE

Ler Shakespeare sempre foi pra mim tarefa alevantadora e massacrante ao mesmo tempo, pois, que se me deparo com o inalcançável escritor assentado no seu cume de Mestre. Shakespeare é o topo do topo ( ou o top dos tops, usando uma linguagem que certamente seria assimilada por ele, que era exímio trocadilhista, dentre outras virtudes só suas) como dramaturgo. Depois dele não há aonde mais ir, e isso, para leitores aspirantes a grandes artistas - eis outro drama dentro do drama, e o trava-língua é proposital -, beira à frustração, às vezes. Tentei resolver essa equação me valendo de outro gênio das letras, meu mestre Fernando Pessoa:

Ler Shakespeare é preciso.
Ser Shakespeare não é preciso...

(Pedro Ramúcio)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

PARA ESTREITAR LAÇOS

Um dia liguei para Ednardo e perguntei como iam as coisas, por que ele estava sumido de Minas, se ele topava fazer um show em Valadares? Ele disse que estava fazendo alguns shows com Belchior e Amelinha, os três juntos em turnê, que gostaria de cantar aqui, sim, de preferência com os outros dois cearenses citados, mas poderia vir sozinho (voz e violão) ou com banda, se eu ajeitava esse evento, e outros pontos que não me lembram mais. O show não aconteceu, não era minha praia, nem aqui ou no Ceará. Contei pra ele que eu escrevia umas coisas diferentes, ou seja, o papo foi ficando meio chato. Pra ele não desligar logo, revelei também que eu conhecia seu trabalho desde Cauim, Berro, O Azul e O Encarnado, Ímã, Rubi, Libertree, O Pessoal do Ceará, Projeto Massafeira, praticamente seu repertótio e trajetória inteiros. Ele foi ouvindo com mais atenção e aproveitei pra mandar a bomba, ou melhor, as bombas: a primeira, se tinha como ele liberar a canção "Passeio Público" para um intérprete de muito talento chamado Samuel de Abreu incluir em seu primeiro CD, que seria gravado em breve; a segunda, se ele poderia fazer chegar até as mãos do Fagner um soneto que eu tinha feito pra ele e já há algum tempo vinha tentando mostrar-lhe. A canção, ele explicou que não dependia dele simplesmente, mas teria que passar pela liberação da Editora também. O soneto, ele pediu desculpa mas não estava tendo contato com o antigo parceiro. Pra encerrar a ligação, sem deixar de ser gentil um segundo sequer, ele me passou seu endereço de e-mail para que assim pudéssemos estreitar laços. Eu perdi onde anotei o e-mail e fiquei sem jeito de ligar de novo pra pedir a ele. Mas a expressão "estreitar laços" ficou na minha mente e deu neste poema:

Para estreitar laços, ofereço-te
Eu mesmo quem faço
Estes versos quisera lindos
Feito o litoral do Ceará
Ou as montanhas de Minas
Que o poeta novo dará
Daria-te as milhores rimas
Eu mesmo quem risco
Quem ouvir, se encantará
Se tu as cantares
Com tua voz de pássaro
Tua beleza de mulher
Luz de Homem que Luzia
Das cordilheiras ao mar
No teu assovio, alvíssaras
Minha alforria, meu alvará
Canção à Liberdade
Liberta que também serás
Jackson do Pandeiro
Cinema de Ednardo
Poema de Drummond
Iracema de Alencar

(Pedro Ramúcio)

sábado, 26 de dezembro de 2009

ÚLTIMO CAPÍTULO

Dedicado ao Cazuza, grande poeta da música brasileira, no momento mais delicado de sua vida: quando ele assumiu pública e corajosamente sua doença, que na época deixava pouca esperança de sobrevida a seus portadores, além de todo o preconceito acerca de um mal sem tratamento eficaz. Poema escrito pouco antes de sua morte, portanto não-póstumo, posto que todos teremos um túmulo, de lápide fria ou quente: saibamos merecer.

Eu vou comprar um disco do Cazuza
Pra eu ler quando entrar a madrugada.
Quero aprender à custa dele
A lira que há nas pedras,
A alma que há nos bichos,
A procura pra cura da loucura
Que nasce na planta do pé
(Mas, aí já é outro poeta).

Sei que o fim da vida pode estar perto.
Mas todo fim é uma forma de chegada,
Toda forma de amor que houver será válida.
Eu amo tanto que nem sobra tempo pra mim
Do que em mim é sala, senzala ou solidão.

Eu vou compor um pequeno e cúmplice poema
Pro Cazuza escutar quando entrar a madrugada.
Eu, que nesta vida suicida somos usados
Nas experiências excêntricas de Deus,
Curvo-me diante do muro da morte
E agradeço cego por enxergar a luz.

(Pedro Ramúcio)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

RIO DE OUTUBRO

A partir de hoje este blog ganha sobrenome: passa a se chamar CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos), posto que agora inauguro este canto em homenagem a um dos maiores cantos da América Latina, voz que se quedou dois meses atrás mas jamais se silenciará em nossos corações e mentes.

Meu coração (de poeta)
Amanheceu de luto
Turvo o dia, sofro o gosto
Rubro da saudade
Há nuvens em minha alma
Um rio de outubro percorre
Desde julho até setembro
Dela e meu aniversário
Nove e nove desses meses
Precisa a dela, vizinha a minha
Datas históricas de nossas pátrias
(Liberdade ainda que algum dia)
Datas histéricas de nossos frátrias
(Liberdade ainda que algum dia)
Um rio de outubro percorre
Sombrio, pela amarga perda
Bravio, pela doce herança
Esse rio sem foz e sem nascente
Posto que corre dentro da gente
A mim me lava bem no centro
Onde eu não me aguento fraco
E desempoeirado monumento
Ergo versos que só ergo assim
A quem nadou dentro de mim
E para todo o eterno nade e nada
Bem no centro onde melhor me lava
Mercedes Sosa mergulha nessa água
Esse rio de outubro em que me banho
Por dentro do mais vivo calendário
Dia quatro calou-se o canto libertário
Mas liberta esteja toda a América Latina
(Cuba, Honduras, Brasil e Argentina...)
Cada vez que ouça a força dessa imensa voz
Cada vez que cante por nós Mercedes Sosa
Eternamente cante por nós Mercedes Sosa
Gracias! Gracias! Gracias! Gracias!

A Raimundo Fagner e Milton Nascimento

(Pedro Ramúcio)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

REBUARQUE

Em 1994, eu escrevi este poema para o cinquentenário do maior compositor da música popular brasileira. Eu contava 23 primaveras e o poema foi publicado no jornal "O Contraditório" da Fadivale, faculdade de direito que eu abandonei de fato faltando um ano para ser bacharel. Logo a seguir ingressei no curso de Comunicação Social ( para fazer jornalismo & publicidade), mas para meu antimarketing, também não concluí graduação. Vamos ao poema então, que um poeta precisa ter mãos pálidas para não morrer de fome:

Ninguém sabe ser Chico Buarque
Porque para ser Chico Buarque
É preciso saber não ser.
Nem mesmo Buarque é.

Buarque é mulher? Não é.
Buarque é Noel? Não é.
Buarque é carioca? Não é.
Buarque é PARATODOS? Não é.
Buarque é tudo ainda mais,
Toda poesia que se for capaz.

Buarque é paralelo de um deus
Que um dia quis ser dois.
Buarque é rima que se ri
Admirada da própria graça.
Buarque é música pra alma,
Quando a alma é visitada.

Buarque é melhor não perguntar
Se é de carne e osso e vai virar pó.
Sua composição (tudo o que ele compõe)
É matéria para outra transformação.
Sua construção (tudo o que ele constrói)
É espécie de outra inspiração.

Buarque é cedo para afirmar
Mas no fim do mundo ele vai estar lá
Com seus mesmos olhos azuis,
E outro mundo vai recomeçar.
Com seus versos sendo a manhã,
Uma manhã eterna para durar.

Buarque nunca vai passar
Buarque nunca vai
Buarque nunca
Buarque ou
Rebuar
Que.

Ao meu poeta Anísio Costa

(Pedro Ramúcio)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O VERTICAL ALÉCIO

Homenagem ao artesão das palavras, amante das artes, poeta e jornalista mineiro Alécio Cunha, com quem eu estava estreitando laços, por e-mail, torcendo muito virasse amizade. Não deu tempo... enfim ficará sempre a lembrança.

Então o poeta não estará mais presente?
Eternamente esteve. Esteve: do verbo estará.
Eu não fui amigo dele, sequer o conheci.
Sequer trocamos um aperto de mãos, de olhares.
Mas cuido que ele era para sempre meu amigo:
Escrevi poemas só para a resenha dele.
Agora livre posso rasgá-los, menos este.
Este eu escrevo para a resenha nele,
Para o bate-papo de dois amigos desconhecidos,
Desconversando sobre poesia e escultura,
Desescrevendo sobre arte e arquitetura,
Despalavrando sobre pura pilhéria e risos puros,
Em fim de tarde, num bar da capital mineira.

Eu que aprendi nos livros a inventar histórias,
Agora invento esta verdade verdadeira e vã:
Éramos amigos de infância, Alécio e eu.
Estudamos e nos formamos no mesmo colégio.
Fomos pra faculdade juntos juntar nossas letras:
Líricas entorpecidas, lúdicas nostalgias do futuro.
Lacunas preenchidas com um bom Rimbaud,
Tristezas passageiras num verso de Drummond.
Agora fiquei órfão obliteralmente de sua poesia,
Estou desterrado de suas matérias e crônicas,
Límpidas de pensamento, claras de ideais.
Quais os rumos que o jornalismo tomará,
Sem sua serenidade severa, para não destoar
De tudo o que ele escreveu em nome da beleza?
Com que prazer eu abria diariamente o Hojemdia,
Para esmiuçar seus escritos, para dissecar sua dor,
Exposta propositadamente em forma de liturgia.
Eu sofria (e sofro) o gozo ziguezagueante
De suas rimas escondidas dentro de cada linha
Que ele costurava sem agulha nem barbante,
De cada metáfora embrulhada nas notícias,
Nas manchetes que ele musicava de silêncio e sol.

Os jornais trarão a vaga notícia de sua morte.
Eu, de antemão, reparo todos os redatores:
Sua morte não seria um acontecimento publicável.
Porque acontece que Alécio Cunha ficou eterno.
Perenemente presente em tudo o que armou de belo.

Triste mas feliz, assino este poema inacabado:
Pois que só acaba o que não produziu segredos.

(Pedro Ramúcio)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

DEZ ANOS COM E SEM JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Citada uma declaração de João Cabral numa postagem anterior, lembro este poema que comecei quando o grande bardo pernambucano partira da lida vertical. Em outubro de 1999 eu apenas escrevi a primeira estrofezinha e a guardei numa gaveta. Agora lendo o grande jornalista mineiro Alécio Cunha citar em seu magnífico blog Ler, Reler, Viver... que a data de dez anos sem Cabral estaria passando sem as merecidas homenagens, principalmente no Brasil, resolvi dar cabo à empreitada empreendida lá atrás. Avante, então:

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Com suor, essa mão
Espalha o pó e o pólen
Do poema inda virgem:
Zangada inspiração.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Essa rima no chão,
Rama que não podem
Desbastar das mãos do Homem,
É um rio sem contramão.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Esse rio em questão
Sobe na estiagem.
Pro tempo, qual barragem?
Saudade é inundação.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Esse oceano-sertão
Precisa de drenagem.
Confusa sua paisagem,
Sol e chuva se lavam.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Essa poça, alçapão.
Líquida hospedagem.
Hóspede sem plumagem:
Só o ladrado de um cão.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Esse poço, prisão.
Lodo por toda margem.
Nódoa na mútua imagem:
Os pixels da ilusão.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Esse fosso, fusão.
Fósforo pós-fuligem.
Fóssil sem data; origem.
Cisterna em combustão.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Esse brejo, vulcão.
Sertanejos que fingem.
Violeiros que tingem
De silêncio a canção.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

Essa gota, erosão.
Água de árida nuvem,
Neve de leve friagem.
Fiado o fio do algodão.

Com pesar, sem João.
Apesar de não sem.
O que vai, vai e vem.
O que há, há e não.

(Pedro Ramúcio)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

INFERNIZANDO ROBERTO MENDES

E por falar em Roberto Mendes, qual poeta não desejaria ser parceiro desse gênio da música? Qual palavra não se extasiaria ao ser cantada e/ou declamada por esse moço de voz que agasalha? Qual acorde não fará haver mais harmonia, ao ser dedilhado no braço mágico do violão desse rapaz? Em silên-cio, meus versos gritam por mim:

Composições com posições que só você põe
No braço mágico do seu elástico violão,
Melodias ao meio-dia da imaginação
Que só você cria pensando com o coração.

Você bem que podia de vez em quando,
Quando a tarde traz sua tez já fria,
Vestir meu verso com sua música multidor -
Perfeita roupa pra enfeitar minha poesia.

Você bem que podia ao menos uma vez,
Quando a noite fria faz fogo de palha na Bahia,
Vestir meu verso com sua voz que agasalha -
Perfeita malha pra aquecer minha poesia.

Composições com posições que só você põe
No braço elástico do seu plástico violão,
Melodias ao meio-dia da imaginação
Que só você cria pensando com o coração.

Roberto, meu irmão, você bem sabe que viramos parceiros à primeira vista.
E não seria preciso assinarmos juntos uma canção para tal finalidade,
afinal nossa amizade parece mesmo música pronta sem ninguém compor.

(Pedro Ramúcio)